Leon Matheus

Linguagens formais e o valor que não faz barulho

Quem faz broadcast é ouvido mesmo por quem não presta atenção. Num mundo de software e dados, as linguagens formais pesam cada vez mais, e ninguém vira músico só falando.

Vou explorar o tema sem muito fundamento, porque também me faço muito essa pergunta.

Somos seres sociais e, até onde sei, não temos uma habilidade telepática de verdade. Por mais que a gente consiga “ler” outras pessoas, e a neurociência conheça cada vez melhor nossos vieses, temos pouca ou nenhuma capacidade de perceber de fato o mundo interno de outra pessoa. Ainda que ideias fundamentais da modernidade tenham sido desenvolvidas por introvertidos pensando sozinhos, muito do “valor” no mundo se constrói na troca e nas relações.

Broadcast e tesouros

Temos atenção limitada e um viés claro para o que é mais latente, perceptível, estimulante. Somos primatas, particularmente orientados a comportamentos sociais complexos e muito suscetíveis a cores, sons intensos e gestos. Pensando em grandes números, a maioria tende a ser mais influenciada pelo que recebe de forma passiva do que pelo que busca de forma ativa.

Nesse sentido, quem faz broadcast acaba sendo ouvido mesmo por quem não quer prestar atenção, e quem guarda tesouros muitas vezes passa despercebido, ou precisa de uma atenção ativa e presente do interlocutor para revelar seu verdadeiro valor.

Considerando empresas como organizações sustentadas por processos realizados por agentes humanos (primatas sociais e sensíveis), os recursos de influência política, como falas, gestos e apresentações, costumam ser a forma mais eficaz de estabelecer domínio sobre um papel, promover uma ideia ou conduzir uma ação. E ser lembrado por isso.

O peso das linguagens formais

Mas vejo que, num mundo “orientado a dados”, onde toda empresa está virando uma empresa de software, outras formas de linguagem, particularmente as linguagens formais (matemática, programação, engenharia de processos, direito, contabilidade), vêm se tornando cada vez mais fundamentais para a condução madura das organizações. Campos tradicionalmente associados a perfis introvertidos.

A necessidade de comunicar esse valor para diferentes contextos e níveis de aprendizagem continua igualmente importante, e saber argumentar e convencer sempre vai ser um diferencial. Mas existe uma tendência crescente de reconhecer o valor “escondido” em outras formas de comunicação. Introvertido ou extrovertido, tímido ou carismático, é preciso desenvolver a qualidade da comunicação, seja qual for o meio, e entender onde está o valor da sua ação naquele contexto.

Ninguém vira músico só falando

Com os LLMs, a ideia de que linguagem natural e linguagens de programação vão convergir para uma espécie de “linguagem formal natural” ganhou força. A ideia de que todos viraremos programadores razoáveis só conversando me parece estranha.

Até onde sabemos, os humanos sempre desenvolveram linguagens formais ou estruturadas para especializar conhecimento e expressividade num contexto: o direito, a notação musical, a contabilidade, a matemática, as linguagens de programação. Seria como dizer que alguém vira músico sem falar ritmo, harmonia e melodia, ou contador sem saber classificar receita, despesa, depreciação e imposto.

É divertido poder consultar o conhecimento coletivo da internet só perguntando e receber uma resposta razoável. Esse conhecimento amadureceu por gerações; só foi embutido num sistema novo. Para que isso vire algo útil, também vamos precisar de jeitos de construir conhecimento e entendimento novos com ele. E a linguagem sempre foi nossa principal ferramenta para isso.